O adoecer da relação

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O adoecer da relação…

 

O adoecer da relação abarca em si uma complexidade de fatores que conduz à terapia de casais aqueles que se sentem sufocados, impossibilitados do exercício da liberdade para estabelecerem o que acreditam ser o melhor para suas vidas.

Nesse contexto, muitos casais recorrem a profissionais objetivando ampliar o que se tornou restrito, bem como, resgatar a intersubjetividade perdida em decorrência da ausência do diálogo e de imposições implícitas no contexto autoritário e reducionista que visa proteger os interesses de uma das partes.

A “força” da fala de uma das partes traz em si um contexto complexo de fatores que podem ser observados e descritos como uma postura em tentar manter por meio do comprometimento e do processo de comunicação a estabilidade.

A quebra da intersubjetividade promove a impossibilidade da consecução das liberdades e isso, em muitos casais, desencadeia inúmeros sentimentos como ódio, medo, rejeição, frustração, sendo os mesmos, propulsores de elevados níveis de estresse que, em virtude de relações imersas a anos de conflitos, encontram-se no nível de exaustão, interferindo nos processos da produção do pensamento resolutório, onde a racionalidade fica assentada na platéia da psiquê, assistindo um combate permeado por aspectos emocionais limitados quanto às possibilidades de compreensão das necessidades das partes do casal.

A prática de acusações torna-se uma forma de eximir-se de responsabilidades trazidas à relação, atribuindo a uma das partes, responsabilidades “do fracasso conjugal”. Parecem se esquecer que uma relação está constituída não apenas por uma parte, mas, existem duas pessoas, cada uma, com seu universo próprio altamente significativo quanto às informações e formas.

As responsabilidades podem ser iguais e não há como imputar acusações a somente uma das partes, sendo possível nomear o que sentem um em relação ao outro ( ódio, raiva, frustração, tristeza) afinal, as formas em sentir são singulares, constituindo assim, limites através das diferenças onde perdem suas fronteiras e tornam-se vulneráveis a atacar, bem como, ao deslocamento da perversidade condensada nas repressões e frustrações.

Pode haver, diante o desmerecimento dos conteúdos vivenciais através da imposição das falas, onde, apenas um acredita estar certo e, o outro, encontra-se errado. As relações tornam-se então unilaterais estando uma das partes distanciadas autoritariamente de suas opiniões massacradas em seus sentimentos, em seus desejos, em suas fantasias.

Aceitar tais diferenças nas relações onde uma das partes usa da imposição de suas verdades para se proteger torna-se árduo, então, algumas pessoas temem desvencilhar de seus conteúdos e valores, pois, perdê-los poderia significar a ausência de controle sobre o casamento.

No início dos relacionamentos tais diferenças são altamente significativas, encantam os parceiros pelas descobertas que fazem, portanto, no transcorrer do envolvimento afetivo há o reconhecimento das mesmas.

No momento em que duas pessoas decidem assumir uma união elas trazem não apenas o enxoval, mas sim, envolvem todos os seus conteúdos internos que foram construídos ao longo de toda uma vida a partir do contato com a família em que foram educadas, o grupo social que pertenceram, características político-culturais e suas crenças doutrinárias.

Muitos casais ao constituírem uma nova família levam para debaixo de seus lençóis suas famílias de origem e, ao longo da convivência, tentam impor, reproduzindo ao outro, modelos de convivência de seus pais, até mesmo, travam as mesmas lutas, sendo para eles um choque muito grande poder observar que suas identidades trazem as marcas daquilo que não queriam para si, então, desenvolvem as mesmas neuroses que tanto as incomodavam.

Daí então surge uma pergunta: “Que relação é essa?” Isso afeta profundamente, afinal, o que mais desejavam era a consecução de projetos de vida; estavam amparados na expectativa da possibilidade da aproximação da felicidade através da união com o outro, no entanto, de repente começam a transferir para seus matrimônios todos os conflitos que os pais viviam, começam a ver o amor como um náufrago e a angústia como a “grande raínha das sombras” (Heiddeger), trazendo sentimentos que os fazem lembrar aquilo que foi um dia vivenciado, promovendo o deslocamento em direção ao outro com muito mais força e, até mesmo, fúria, pois, além de reviverem internamente toda dor que odiaram, não conseguem estabelecer a compreensão e vêem-se diante das suas maiores dúvidas em relação aos sentimentos, as crenças, aos seus projetos e aos filhos. Assim, co-responsabilizam-se pelos desacertos e pelos conflitos internos que passam a constituir uma nova relação com velhos conteúdos.

Os problemas que atribuem ao outro não estão necessariamente naquele que imagina ser seu algoz, mas, encontram-se intrínsecos nos traumas de relações disfuncionais.

Há entre o casal “uma terceira pessoa”: A relação. A mesma os descaracteriza em suas identidades e os faz emergir no caos emocional tornando-os estranhos em um mesmo ambiente em virtude da incompreensão de tais aspectos que irão interferir nos processos cognitivos, afetivos, fisiológicos. Dentro de tais processos encontram-se impossibilidades de construção de novas forma de pensamento, afinal, tais características de personalidade de cada um, uma vez expostas e impostas, dispara o que podemos chamar de gatilho de memória, fazendo imediatamente a leitura de milhões de informações armazenadas a partir das impressões sobre o que estão vivenciando. Trazem as vivências conflituosas de/com seus pais e as vivem em suas vidas como se fossem eles próprios. Atribuem ao parceiro responsabilidades por suas frustrações, medos, inseguranças e derrotas

Os conflitos conjugais baseados nessas circunstâncias, desencadeiam um fenômeno que gera, em alguns casos, a manutenção instalada na própria relação. Assim, uma das partes, para manter o relacionamento torna-se ou o algoz, ou então, o dependente emocional construindo para suas vidas relações “indesejadas”, mas necessárias para poderem viver o hades emocional em suas existências, afinal, o mesmo as faz ter contato com suas próprias histórias, aproximando-as da angústia como forma de sentirem-se vivos.

A retirada, ou mesmo, a resolução de tais conflitos representa o perigo iminente de viverem o que mais desejam e o que menos aceitam em suas vidas: A liberdade.

Haverá um momento em que a falência da relação imputará aos que a vivem, um preço tão elevado que, tomar decisões torna-se o encontro da liberdade em meio à dor da dissolução. Tal temor sobressairá em relação ao insustentável, afinal, as conseqüências da falência de uma relação adoecem cada dia mais uma das partes.

A impossibilidade de ouvir e ser escutado, as palavras que se tornam armas constantemente usadas para atingir, as acusações respondidas com acusações, a força frágil do discurso autoritário que impele o outro sempre à opressão o faz refém de seus próprios sentimentos.

Dr. Antonio Britto de Fleury Junior

Psicólogo e coordenador do Ateliê de Inteligência

Contatos: [email protected]

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